Segurança alimentar em tempos de quarentena e isolamento

As formas de contaminação do COVID-19 se baseia no que se sabe também sobre outros vírus semelhantes: a propagação principalmente de pessoa para pessoa e a indireta, por contato com superfícies ou objetos contaminados.

Ainda não há evidências de que alimentos ou embalagens de alimentos estejam associados à transmissão do COVID-19**. Então frutas, verduras e legumes assim como qualquer outro alimento, só apresentam risco se forem manuseados por alguém contaminado.

Atenção às atitudes e ações nesse momento:

  1. Se posso me contaminar com o contato (pessoa-pessoa ou por objetos, superfícies) a primeira medida é a que estamos incansavelmente ouvindo nas últimas semanas: higienizar corretamente as mãos – seja com água e sabão, seguindo as etapas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ou com álcool gel.
  2. O isolamento, reduzindo o contato entre as pessoas, pode de fato nos proteger, mas há que se ter cuidado nas compras dos alimentos frescos e industrializados (sacolões e/ou supermercados) que até nossas casas poderiam já vir “contaminados”. Inclusive atenção redobrada nos locais de compra evitando falar, assoviar, tossir sob e muito próximo aos alimentos, gôndolas e tampouco tocar nos olhos, boca e nariz.

Ao voltar das compras ou optar por serviço delivery  e sentir-se receoso com a contaminação de embalagens e/ou dos alimentos comprados, lave as mãos após manuseá-los. Dificilmente teremos como saber o comportamento de sobrevivência do vírus que porventura vier “de fora”; o calor no preparo dos alimentos os matará (~70°C), mas alimentos crus (frutas, verduras e legumes) merecem correta sanitização (veja a seguir). Não devem ser consumidos caso tenham partes estragadas, mofadas ou com coloração ou textura alterada e devem ser mantidos em refrigeração (em especial folhosos e frutas).

Ao comprar produtos pré-cortados, ensacados ou embalados (ou seja, previamente manipulados) o risco de contaminação é maior (p.ex.: metade de uma melancia ou uma salada fresca, frutas picadas, embutidos, sucos naturais) – melhor escolher apenas itens que são mantidos refrigerados ou em recipientes cercados por gelo; outra opção é pedir para cortar/preparar na hora (mas atentem-se as condições de higiene e utensílios do local). Mamão, laranjas, bananas, goiaba, pera, maçã, limão podem ficar fora da geladeira, mas a depender do grau de maturação da fruta perdem mais facilmente. Depois de partidas devem ir para geladeira em recipientes plásticos limpos.

Mãos limpas, mãos à obra:

O 1º passo convencional ao chegar em casa é a lavagem dos alimentos em água corrente (nada de sabão e esponjas); o recomendado é colocá-los em solução de hipoclorito de sódio (10ml ou 1 col. de sopa) em 1L de água, ~ 10 a 15min (confira as informações na embalagem do produto se o saneante é apropriado para uso em alimentos e lar e informações sobre a diluição). Depois, enxaguar em água corrente para prepará-los (coccionar, guardar em recipientes limpos e refrigerar).

Mesmo alimentos que você eliminará a casca devem ser lavados e higienizados em hipoclorito para que a sujeira e as bactérias não sejam transferidas da superfície ao descascar ou cortar os mesmos. Escovinhas limpas devem ser destinadas exclusivamente para os alimentos com cascas firmes como p.ex.: melão, melancia, maracujá, goiaba, abóboras, chuchu, pepinos, berinjela etc. Depois de enxaguados, seque-os em papel toalha, prepare ou armazene em vasilhame limpo sob refrigeração.

Para durar mais em geladeira folhosos, depois de higienizados, devem ser centrifugados ou secos em papel toalha; se quiser guardar p.ex.: cenoura ou beterraba já ralada (devem ser secas antes); vegetais cozidos podem ser armazenados em vasilhas plásticas limpas (mas o ideal é consumi-los de um dia para o outro); batatas e abóbora moranga resistem mais tempo fora da geladeira; mas em tempos de COVID o melhor é deixar verduras e legumes em uma sacola de plástica limpa dentro da geladeira até o momento do preparo seguindo o mesmo protocolo de limpeza. Ovos não devem ser lavados antes do armazenamento. Deixe-os num vasilhame próprio na geladeira e sem contato com outros alimentos; lave-os antes do preparo ou cocção.

Às vezes, as doenças transmitidas por alimentos podem ser confundidas com outras que apresentam sintomas semelhantes (como a COVID-19). Os sintomas de doenças transmitidas por alimentos podem incluir: vômitos, diarreia e dor abdominal. Sintomas semelhantes aos da gripe, como febre, dor de cabeça e dor no corpo. Por isso, em casa, manipulando seus alimentos e as refeições tenha cuidado à limpeza das mãos antes do preparo e consumo, pois o vírus só necessita de um hospedeiro e você pode ser esse veículo assim como os utensílios, objetos e superfícies.
ATENÇÃO: O hipoclorito de sódio na concentração 1% é um produto corrosivo, à semelhança da água sanitária cuja concentração de hipoclorito é maior (2,0% e 2,5%), podendo causar lesões severas dérmicas e oculares. Use cremes hidratantes para evitar lesões nas mãos (converse com seu dermatologista). A Anvisa não recomenda uso de produtos caseiros para prevenção contra o coronavírus. Além da ineficácia, eles podem colocar a sua saúde e a de outras pessoas em risco. Confira os saneantes regularizados: Acesso em: 28/03/20: BRASIL/MS/ANVISA.

Covid 19: só use saneantes regularizados.

A saber:

Limpeza – refere-se à remoção de germes, sujeiras e impurezas das superfícies.  A limpeza não mata os germes, mas, ao removê-los, diminui o número e o risco de propagação da infecção. Vinagre pode ajudar na limpeza, mas não mata os germes.

Desinfecção – refere-se ao uso de produtos químicos para matar germes em superfícies. Esse processo não limpa necessariamente superfícies sujas ou remove germes, mas ao matar germes em uma superfície após a limpeza, ele pode reduzir ainda mais o risco de propagação de infecções.          

** Food Safety and the Coronavirus Disease 2019 (COVID-19). Acesso em 28-03-20

Referências:
-> Selecting and Serving Produce Safely. Acesso em 28-03-20.
-> O novo coronavírus pode ser transmitido por alimentos?

Publicado por

Dra. Janaina Goston

Dra. Janaina Goston, especialista em nutrição esportiva - Belo Horizonte Doutora em Saúde Pública (Faculdade Medicina UFMG), Mestre em Ciência de Alimentos (Faculdade Farmácia UFMG), Pós graduada em Fisiologia do Exercício (UVA-RJ)